Cerâmica de Rosário transforma tradição centenária em patrimônio reconhecido nacionalmente
Cerâmica de Rosário transforma tradição centenária em patrimônio reconhecido nacionalmente
Cerâmica de Rosário transforma tradição centenária em patrimônio reconhecido nacionalmente
Reprodução/ ASCOM
Em Rosário, na Região do Munim, o barro representa muito mais do que matéria-prima. Ele carrega história, tradição e sustento para famílias que há gerações transformam a argila da região em filtros, vasos, potes, manilhas e outras peças de cerâmica.
Agora, esse trabalho ganhou reconhecimento oficial. O município recebeu do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) o registro de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência (IP), para a produção cerâmica. O reconhecimento é o primeiro desse tipo concedido no Maranhão.
O pedido foi apresentado pela Associação dos Oleiros de Rosário (ASSOR), com apoio do Sebrae Maranhão, que auxiliou na organização dos produtores e na construção do processo de reconhecimento.
Indicação Geográfica reconhece relação entre produto e território
A Indicação Geográfica é uma certificação que reconhece produtos ou serviços que têm características, qualidade ou reputação associadas a uma determinada região.
Na prática, o registro permite que a cerâmica de Rosário seja oficialmente identificada pela origem e pelo vínculo com o território onde essa tradição foi construída ao longo dos anos.
Para os oleiros, o reconhecimento representa a valorização de um conhecimento passado entre gerações e uma oportunidade de fortalecer a produção local.
Oleiro aprendeu profissão e virou representante da tradição
À frente da Associação dos Oleiros de Rosário e do processo apresentado ao INPI está Amarildo Silva. A história dele com a cerâmica começou de forma diferente da de muitos profissionais da área.
Ele não nasceu em uma família de oleiros. O primeiro contato com a atividade aconteceu quando trabalhou como diarista em uma olaria, onde preparava a argila, amassava o barro e ajudava no acabamento das peças.
A curiosidade fez com que ele buscasse aprender a profissão.
“Via aquela roda girando, aquela mão transformando nada em tudo, e fiquei encantado”, conta.
Quando pediu a um mestre que ensinasse o ofício, recebeu um pedaço de barro e um desafio: “Se vira”. Vieram as peças quebradas, as tentativas e o aprendizado.
“Eu não tenho sangue de oleiro, mas tenho o barro no sangue”, resume.
A trajetória de Amarildo representa uma tradição que não depende apenas de herança familiar. Ele aprendeu observando os mestres mais antigos e incorporou técnicas fundamentais para a produção, como o ponto certo da argila, o trabalho no torno e o tempo de queima das peças.
Ao mesmo tempo, passou a criar produtos com características mais contemporâneas, sem abandonar os métodos tradicionais.
“Isso ajuda a tradição a não ficar parada no tempo, a se renovar”, afirma.
Foi justamente esse conhecimento acumulado pelos oleiros que ajudou a transformar uma prática conhecida pela comunidade em um reconhecimento oficial do território.
Segundo David Amorim, gerente da Unidade Regional do Munim-Baixo Itapecuru, com sede em Rosário, o trabalho começou pela organização das informações sobre a história da cerâmica e a relação da produção com o município.
“O primeiro passo foi entender que os oleiros já tinham aquilo que era mais importante: uma história, um saber fazer e uma produção reconhecida em Rosário. O nosso papel foi ajudar a organizar esse conhecimento e transformar tudo isso em um processo capaz de ser apresentado ao INPI”, explica.
A parceria entre Sebrae e ASSOR envolveu a reunião de documentos, a valorização do conhecimento tradicional e a estruturação das informações necessárias para o pedido de registro.
“Foi um trabalho de construção junto à Associação dos Oleiros de Rosário, reunindo informações sobre a história da cerâmica, a relação da produção com o território e as características que comprovam essa identidade”, destaca David.
A Indicação Geográfica vai além de um certificado. O reconhecimento pode aumentar a visibilidade da cerâmica de Rosário, agregar valor aos produtos e criar novas oportunidades de comercialização.
Em uma atividade que enfrenta concorrência com peças de menor preço, a identificação da origem pode ajudar a diferenciar a produção local.
A certificação também abre possibilidades para aproximar a cerâmica do turismo. Localizado no caminho para os Lençóis Maranhenses, Rosário pode transformar as peças produzidas nas olarias em uma forma de apresentar a identidade do município aos visitantes.
Para Amarildo, o principal impacto está na continuidade da profissão.
“Eu sou a prova de que o barro dá futuro”, afirma.
A expectativa é que a valorização da cerâmica incentive a formação de novos aprendizes e fortaleça a transmissão do conhecimento entre as gerações. O sonho do oleiro é criar uma escola ou centro de ensinamento para que jovens possam aprender com os mestres de Rosário.
A Indicação Geográfica não criou a história da cerâmica rosariense. Ela apenas reconheceu uma tradição que já existia nas olarias, nas mãos dos artesãos e na argila retirada do território.